sábado, 29 de Março de 2014

hoje faço anos


Vivi grande parte da minha vida com uma sala de cinema por vizinha. Diria mesmo um cinema. Naquele tempo os filmes não eram exibidos em pequenas salas, como hoje, mas em grandes espaços onde a tela era imensa e o foco do projetor percorria um longo caminho e se ouvia o som do mecanismo das bobinas que dava vida à magia gravada nas películas de celulóide. Quantas vezes a fita rebentava. Quantas cenas eram cortadas.
O cinema ocupa, por isso, desde sempre, um papel importante na minha vida. Todos os dias, fazia parte do ritual, tinha que ir ver os cartazes. Tinha de saber qual o filme a ser exibido naquela noite. Ou melhor, na seguinte. Porque o filme daquela noite já havia sido anunciado no dia anterior. Mas tinha que lá ir. O dia não seria o mesmo se por ali não passasse. Por vezes, principalmente nas férias, ia vasculhar os caixotes do lixo do cinema. Encontrava sempre restos de fita. Tentava  perceber o que continham, mas era difícil identificar fosse o que fosse. À tarde, muitas vezes, as portas estavam abertas. Entrava na sala escura a ver o que por lá se passava. Foram muitas as vezes que assisti a partes de filmes que não seriam próprios para a minha idade, mas depois de lá estar dentro, escondido no escuro por entre as cadeiras, ficava. E gostava. O problema era sair. Mas havia sempre uma maneira engenhosa de o fazer.
O Azória, assim se chamava o cinema construído por volta de 1943, na Base, e já demolido, abriu-me as postas para este mundo da sétima arte. E não só. O primeiro beijo. A primeira mão à procura de outra. Namoricos de infância. “Derrames” de adolescente. O local era perfeito. A escuridão tem a
capacidade de guardar tudo.
Os bilhetes custavam 2$50 (um cêntimo) e desde cedo os nossos pais deixavam-nos ir ao cinema sozinhos, praticamente desde o dia em que conseguíamos atravessar a estrada sem ajuda. Recordo com saudade esse tempo. O Trinitá e o Bud Spencer. O Tarzan. O Cantiflas. As “caboiadas”. Os filmes de guerra. Os Indiana Jones e o ET. As cenas mais picantes – a maior parte das vezes só um beijo – que punham a sala em alvoroço e a tropa toda a assobiar. A enchente que foi o Top Gun ou o Império do Sol. E os documentários brasileiros sobre a indústria metalúrgica de São Paulo que antecediam o filme principal.
Passados estes anos, não fico indiferente a este tema excecional do Cinema Paradiso. Choro sempre. Sempre. Ao ver este filme, reencontro-me comigo mesmo. Não me tornei realizador de cinema. Não tinha os cabelos escuros de Toto ou a pele trigueira. Era louro muito louro e branco
como papel. Mas se há filme com o qual me identifico, é este.



sexta-feira, 28 de Março de 2014

e porque hoje é sexta-feira...



Sim, porque se hoje é sexta-feira, e não devemos comer carne, fica uma proposta para refletir - e consumir - durante o fim-de-semana. O normal seria dizer "não abusem", mas aqui apetece dizer "desgracem-se!". Se existem coisas melhores para fazer? Existem. Também sei quais são. Mas... o chocolate, ou acompanhadas por chocolate.... digam-me lá se já não vos está a crescer água na boca.
Bom dia e bom trabalho!! 

quinta-feira, 27 de Março de 2014

ainda há bufos


Assim como que por acidente, encontrei na net uma referência a “George the Crook” quando fazia pesquisas sobre imagens de cafés da Praia da Vitória. O achamento por si não constituiria surpresa não fosse o facto de estar numa página da Marinha dos Estados Unidos onde se partilham experiências dos homens e mulheres que a servem e serviram um pouco por todo o planeta.
“George the Crook” – o Café Açores – também faz parte das memórias desses marinheiros americanos que, por pouco tempo que seja, passaram pela nossa terra.
Este foi um café emblemático da então Vila da Praia a par com o Café Relvas e o Terezinha. Apesar dos meus mais de quarenta anos, não tenho memória nem do Açores nem do Relvas. Mas a sua fama é daquela que vinha de longe e os Americanos não lhes foram indiferentes.
Era o ponto de encontro daqueles que procuravam um ambiente diferente daquele que se vivia dentro da base, principalmente para as tripulações em trânsito que queriam fugir aos clubes. Estes descrevem-no assim:

“To those who were never there, the George the Crooks had a small bar with no stools (you stood and drank) and about six tables with a total of about 18 chairs. The bar was fronted with VP squadron insignia from the units that were stationed there. The walls and ceiling were covered with squadron and crew memorabilia, hand fashioned by the crews and individuals that visited the place. It was, in essence, a museum that recorded the passage of men and squadrons that passed through the Azores.”

“At George the Crook's most crew lists and detachment lists were hand-made by the crews themselves. Crews that I served on (VP-64 Crews 1,2,4,and 6) always posted their crew lists on part of a Budweiser box cover; alongside the Bud logo, we pasted a VP-64 squadron patch. 

At the Cafe Azores, you could drink Portuguese wine, eat Portuguese cheese, and occasionally, be entertained by George and his magic tricks. However, the main purpose of visiting the Azores Cafe was the aircrew lists, deployment lists, and squadron patches posted on the bar and on the walls and ceiling of the cafe. It became kind of a ritual that, as soon as arriving crews had their aircraft secured and could get off duty, they would go down to George the Crooks, pay their respects to George, and post their current crew list on the walls. They would look up their previous crew postings, introducing the new crew members to the ritual. They also scanned the walls to see the other units and aircrews that had preceded them.”


Os cafés deixaram de ser o que eram. Pouco são de ponto de encontro. Aquele lugar onde se vai porque se sabe que lá estará um amigo com quem se pode dar dois dedos de conversa. Os cafés já não são locais de tertúlias e de conspiração. Que falta fazem estes cafés tradicionais… mas sem bufos. Porque, com bufos, ainda continuam a existir…

quarta-feira, 26 de Março de 2014

nada à espera


Não estava nada à espera. Entrei na igreja de Santa Bárbara por um mero acaso. Desloquei-me àquela freguesia para fazer um trabalho. Enquanto esperava por um colega, sentei-me num daqueles bancos existentes junto ao Império. A tarde estava cinzenta e o nevoeiro baixo. Esperei um pouco e aproveitei para registar o momento. Uma selfie. Que mais se poderia esperar. Fui tomar um café. Um hábito para se ocupar o tempo. Duas pessoas do lado de fora do balcão. Um senhor a atender. Pedi o café. O proprietário do estabelecimento – penso que seria o proprietário – deslocou-se até à máquina e começou a tirar o café. Quando a chávena já ia a meio, perguntou-me se o queria cheio. Costumo bebê-lo curto. Mas a culpa foi minha. Bebi-o assim. Voltei ao banco da praça. Não havia movimento. Olhei para a igreja. Sempre me fez confusão aquele ser o único tempo que conheço na ilha Terceira construído abaixo do nível da estrada. Fui averiguar. Não obtive respostas. A única coisa que me chamou a atenção foi o colorido do interior da igreja de Santa Bárbara. Pareceu-me entrar num templo indiano – onde nunca entrei – tal era a riqueza cromática do batistério e dos castiçais. Não era nada que eu esperasse...

sábado, 22 de Março de 2014

a cidade do silêncio


A cidade já não atrai. A rua de Jesus perdeu brilho. As pessoas fugiram. O comércio fechou. A crise. Uma justificação para tudo. E os investimentos? Os privados não conseguem. Não têm dinheiro. Os bancos não emprestam.
A Câmara nunca investiu tanto em tão pouco tempo. Houve dinheiro. Afinal sempre houve. Onde está ele? Para onde foi? Investido em quê? Terão sido bons investimentos? Não nego a importância de alguns deles. Falharam as prioridades. Primeiro, o que enche o olho. Depois... depois já não há dinheiro. Há uns três ou quatro anos anunciou-se um plano de revitalização do comércio tradicional. Vinham especialistas de fora. Gente com experiência. Já tinham trabalhado no Porto e em Braga. Essa gente veio mesmo? Se sim, qual o resultado do seu trabalho? Se não, que fez a câmara para revitalizar o comércio?
Quando vem de fora é porque é bom. Veja-se o que se fez com o trânsito. Importaram-se os modelos das grandes cidades. Aplicaram-se a uma pequena cidade. Deu no que deu.
É difícil circular na Praia. O trânsito é um caos sem ter carros. Os parquímetros afugentam as pessoas. Um atraso de um minuto não tem perdão. Desumanizou-se a cidade. Destruiu-se a sua urbanidade. Já nem no café é possível um atraso. A multa não espera.
A cidade não tem capacidade para atrair empresários nem pessoas. A cidade morre. A cidade não tem um projeto. Os seus habitantes não conhecem um destino. Perdeu-se a capacidade de inovar. Tantas promessas. E tantos nadas.
Que futuro queremos para a Praia? Que futuro quer a câmara para a Praia? Que futuro quer a oposição para a Praia? Ninguém ouviu. Ninguém diz. Ninguém faz.

Os discursos tornam-se ocos. Vazios. Cheios de lugares comuns. Politicamente corretos. E a Praia? Onde cabe ela no meio de todo este silêncio?

sexta-feira, 21 de Março de 2014

ravioli de espinafres recheado com salmão e queijo


Sexta-feira. Vamos lá cozinhar. Tem farinha. Tem ovos. Já dá para fazer uma pasta. Com quê? Ninguém come pasta sem mais nada. Só azeite? Umas ervas? Salada? Que tal uns ravioli? Parece-me bem.  Humm... Recheados com queijo? Monótono. Salmão. Boa ideia. Salmão mais uns queijos. Ravioli de massa fresca com recheio de salmão e queijo. Vamos às compras!
Pode ser congelado? Não vejo porque não. E se misturarmos salmão fumado? Ótima ideia. Espinafres. E se a massa fosse de espinafres? Nunca fiz. Também nunca fiz massa fresca.
Cozer espinafres. Triturá-los. Juntar 250 gramas de farinha a dois ovos e começar a preparar a massa. Misturar com os espinafres e amassar. Fazer uma bola com o preparado e deixar repousar durante 15 minutos.
Cozer o salmão temperado com sumo de limão, azeite, sal e pimenta. Depois de cozido, desfiá-lo e misturá-lo com o queijo. Triturar a mistura. Provar e retificar os temperos.
A massa deverá ser tendida utilizando a máquina própria. Uma aventura. Até dar com o jeito deu que fazer. Mas não ficou mal. Tendê-la sobre a bancada. Neste processo não esquecer de ir polvilhando com farinha para não pegar nem à bancada, nem às mãos, nem à máquina.
Preparar os ravioli. Levar a cozer em água a ferver abundantemente temperada com sal e um fio de azeite. Quatro minutos.
Servimos com molho de tomate que havíamos feito há uns dias e queijo da ilha ralado.
Ficou muito bom. A cozinha é que ficou um desastre... Mas valeu a pena.